Esta é uma música que compus quase inteira numa madrugada em que não conseguia dormir, em um momento de tensão, tentando me relaxar.

A situação era a seguinte: demissão generalizada de dezenas de colegas professores em meu trabalho, combinada a uma ausência total de orientações e diretrizes e absolutamente nenhum esclarecimento, comunicado ou justificativa para o que estava acontecendo, nada. As notas lançadas pelos professores haviam sido todas substituídas automaticamente por 9. Ninguém entendia o que estava acontecendo, e se espalhava um estado de choque, com a situação em que íamos sendo lançados às dezenas em meio à plena pandemia e com crise econômica à frente.

Minha melhor válvula de escape para coisas assim é sem dúvida a música. Então, foi o que focalizei. E logo ficou claro que esta música aqui só faria sentido se eu trabalhasse muito cuidadosamente a dinâmica, a variação dos volumes dos instrumentos — por isso imagino que seja provavelmente muito difícil de ser executada mantendo a mesma limpidez, com cada instrumento emergindo à tona em suas frases para depois submergir e deixar outro aflorar com frases diferentes em resposta, e assim por diante, numa sucessão de diferentes instrumentos.

Acho que no fundo girava pelo meu pensamento o conjunto dissonante das vozes indignadas e lamentos dos professores apoiando-se uns aos outros, tal como as imaginava a partir dos diálogos de triste e auto-irônico bom-humor com que iam se desfazendo/despedindo por escrito, em rede social, da instituição que se havia desfeito deles.
Finalmente, no último dia letivo do semestre (hoje, dia 30), foi a minha vez de dar aula pela manhã e logo mais à tarde receber um telegrama de mesma data com minha demissão. Um pouco mais calmo e conformado, senti que era uma bom estado de espírito para terminar esta composição, selando meus sentimentos em relação à diafonia de vozes em despedida no meu imaginário. E aqui está ela.
Não sabia que título dar à música. Mas percebi que ela trabalha com densidades — como que com a densidade dessa massa imaginária de vozes amigas em adeus. A primeira coisa que me veio à mente foi nomeá-la pelas camadas de transparência, em que se ouve uns instrumentos em burburinho lá no fundo por debaixo de outros. "Transparências".

Depois me ocorreu que nem sempre as pessoas associam essas transparências a camadas sobrepostas, muitas vezes visualizam isto de forma mais plana e chapada, o que não passaria o sentido de densidade dessa massa sonora. Então decidi acrescentar "Profundidades".

Mas havia algo mais, umas ondas com agitada leveza percorrendo essa massa commo ranhuras vivas, aqui e ali, e à vezes um pouco mais longamente. Pensei em neurônios e nervos, e finalmente, em "Nervuras". E eis a origem do título.
A música ficou totalmente pronta pouco antes da meia noite deste dia 30. E a exponho agora, pouco depois da meia noite, já entrando em julho de 2020. Espero que seja capaz de transmitir especiamente esse clima sonoro, esse jogo de densidades que quis captar para quem ouve minhas composições, fazendo disto algo bonito. Não deixa de haver alguma beleza, mesmo que uma beleza triste, em todo tipo de sentimentos que humanamente se pode captar e exprimir. E senti algo de sutil e imperceptivelmente grandioso e bonito naquela união dissonante de colegas e amigos. Quis transmitir um pouco disso também.
Espero que curtam.

    Acoustic
    • Type: Original
    • 93 bpm
    • Key: D
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    • São Paulo, Brazil
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